Considerações sobre o 75ª Congresso do P.E.N. Internacional em Linz - de 19 a 25 de Outubro de 2009
Trabalhos e dias. Ninguém se desilude a não ser quem se iludiu, escreveu Goethe numa das suas Máximas e Reflexões. Linz é uma cidade acolhedora de memórias históricas próximas e distantes e sentimo-lo logo á chegada ao aeroporto Danúbio Azul. Andando pelo núcleo antigo da capital europeia da cultura 2009, vemos a par e passo estampadas na calçada inscrições que remetem para factor ocorridos nos diferentes lugares, hoje de uso quotidiano: ruas, casas, jardins, monumentos. A superação de um passado incómodo requer uma lucidez minimalista.
Quase defenderia a necessidade de uma atitude semelhante para relatar o que se passou neste reencontro da grande família do P.E.N. Dos 145 centros em 102 países compareceram menos de metade, 75. Muitos, poucos? As grandes ausências deixam grandes interrogações. Se ainda há alguns anos a presença dupla de delegados israelitas e palestinianos tornava inevitável uma escalada de argumentação e dramaticidade nas sessões plenárias, desta vez a dupla ausência pesou mais do que um levantar de vozes, do que os esforços constantemente renovados para redigir declarações em conjunto, logo ultrapassadas por acontecimentos insanos exteriores ao trabalho paciente.
Talvez possamos dizer, no espírito da máxima goetheana, que as assembleias anuais são não tanto pontos altos do trabalho regular ao longo do ano mas simplesmente plataformas de reunião e reflexão intermédia. Sendo assim, esta cumpriu o que se tinha proposto. Foi eleito presidente o canadiano John Ralston Saul, vencendo a africana Margaret Busby na sombra da triste ausência de Amin Maalouf, que retirara pouco antes a sua candidatura por motivos de saúde. Cada candidato tem a sua maneira de actuar e de recontextualizar o trabalho da direcção em Londres e da direcção internacional, de que fazem parte o secretário norueguês Eugene Schoulguin e os vogais Haroon Siddiqui (Canadá), Hori Takeaki (Japão), Kristin Schnider (Centro suíço alemão) Marketa (VER APELIDO), recém-eleita (República Checa), Mohamed Magani (Argélia), Mike Butscher (Serra Leoa) e Yang Lian (Centro de Escritores Chineses Independentes). Cada presidente terá de gerir interesses e sensibilidades distintas que nestes dias circularam pelo Design Center de Linz, um hangar de ferro e vidro suspenso, com diferentes graus de vontade de servir causas ou de se promover pessoalmente. Tais objectivos por vezes até nem se excluem, mas em todo o caso encenam-se de modo nítido, sobretudo para quem treina o olhar de reportagem novelística.
Frustrante talvez, para quem desejaria que as sessões dos comités dessem maior espaço para o debate e não se orientassem em linha cortante para resultados reportáveis, porque os relatórios então lidos não perfazem mais que poucos minutos face a uma assembleia tão atenta quanto as circunstâncias proporcionam. Certo, o P.E.N. continua a empenhar-se incessantemente contra a perseguição e condenação de escritores e jornalistas devido ao uso da liberdade de expressão, contra a extinção de línguas consideradas minoritárias. O núcleo duro do plano para os próximos três anos, apresentado pela direcção internacional, consistiria em “repor a literatura no coração da organização”.
Também por aí se reduziu o tempo de discussão e deliberação dos comités, de relatórios das iniciativas e conferências regionais. A iniciativa do Comité de Escritores para a Paz, de lançar um apelo para o empenhamento de escritores para um mundo sustentável, não mereceu, de acordo com opiniões que logo se manifestaram, o devido apreço por parte da direcção dos trabalhos na assembleia geral. O mesmo aconteceu com um alerta sobre a tentativa do Google para colocar no espaço virtual não apenas textos caídos no domínio público. E aí se vê a porosidade das fronteiras: onde começam e acabam as competências do P.E.N., das sociedades de autores, das organizações ambientalistas? Mas não serão todas as vozes da cidadania mundial necessárias, mesmo se entram em cacofonia ocasional, para movimentar um pouco a inércia dos espíritos, o comodismo das almas?
Uma segunda edição do festival Free the Word, na sequência da iniciativa londrina do passado mês de Abril, ocupou os últimos dois dias do encontro em sessões de leitura de textos e debates. Numa mesa redonda sobre literatura e política (e em substituição do insubstituível Amin Maalouf), tive ocasião de sublinhar que a relação entre literatura e poder não pode deixar de ser oblíqua, embora não tenha de ser antagónica e que é sempre necessário dialogar para redefinir, comunicar para estabelecer pontes depois de delimitar fronteiras.
Fora dos limites. A visita ao campo de Mauthausen, onde morreram milhares de pessoas devido ao despojamento de toda a pele de dignidade individual, entra no domínio do indizível. Num dia de chuva, os barracões alinhados num verde-cinzento albergam ainda dispositivos suficientes para dar a perceber o fio quebrado de todos os dias dos prisioneiros, que tombavam na subida de volta do campo de trabalho, mais abaixo no vale. As pontes sobre o Danúbio (não azul) são ainda desse pesado granito, que agora facilita os passos entre as duas partes da cidade. Entre as explicações da guia, professora de História, e a deposição de uma coroa em nome do P.E.N., só a arte consegue desbloquear o peso das memórias. Na parte inferior do campo, um parque de esculturas cedidas por diferentes países agarra-se ao olhar porque este busca nelas refúgio para o sufoco. Sobretudo uma escultura doada pela organização israelita Yad Vashem, recortando-se na neblina outonal, ajuda-nos a escalar o caminho de volta para a respiração quotidiana.
Last but not least: a antologia do centro português, elaborada expressamente para a assembleia e para o festival, teve uma gratificante aceitação. Numa pequena colectânea subordinada ao título Tudo menos Palavras, pretendia-se não apenas jogar com o lema algo infeliz do evento, traduzido no pseudo-shakespeariano “Words, words, nothing but words”. A afirmação de dezoito poetas, ensaístas e novelistas em textos de edição bilingue tornou-se numa prática a continuar nos próximos congressos, num futuro em que a liberdade da palavra, do uso de línguas minoritárias, da vida comum em paz e da igualdade dos direitos continuará ameaçada. Por aí o P.E.N. não perderá a sua legitimidade. E o seu empenhamento será a sua legitimação. O próximo congresso está agendado para Tóquio, em Setembro de 2010, tendo como tema “Literatura e ambiente”. E essa margem é, como escreve o poeta chinês Yang Lian, onde nos vemos a nós próprios lançar as velas.
Teresa Salema
Presidente do P.E.N. Clube Português
(Delegada oficial, com Maria João Reynaud)


