Nos últimos meses, quatro ilustres escritores deixaram o círculo de amizade e de afirmação de objectivos que o PEN se propõe. Foram eles Luís Sousa Rebelo, M.S. Lourenço, José Saramago e, mais recentemente, Matilde Rosa Araújo. Ao longo da prática da sua escrita e da defesa dos direitos não só dos escritores como dos “cidadãos” do mundo, estes quatro autores foram exemplos maiores de dedicação e afirmação dos principais valores das suas e nossas condições – a Escrita, a Literatura, a Cidadania, a Liberdade. Cumpriram-no com entusiasmo e dignidade na sua acção cultural, na sua obra literária ou filosófica, na sua vida pessoal e pública.
Destes quatro nomes, Matilde Rosa Araújo foi o último a enlutar-nos (6 de Julho de 2010). Foram 89 anos de existência excelentemente preenchida como cidadã, como professora e como escritora. Nascida em Lisboa no dia 20 de Junho de 1921, licenciou-se na Faculdade de Letras de Lisboa em Filologia Românica em 1945. Optou pela profissão que considerou “apaixonante” – ser professora. E, como agente de instrução e educação, exerceu a sua actividade pedagógica em várias escolas de muitas localidades do País, desde o Barreiro, Caldas da Rainha, Elvas, Leiria, Portalegre, Porto e finalmente Lisboa. Na sua cidade natal, também, leccionou em diferentes escolas, inclusive na Escola do Magistério. Colaborou em importantes jornais (Diário de Lisboa, República, A Capital, Jornal do Fundão, Comércio do Funchal, entre outros) e em muitas revistas representativas de momentos fundamentais da cultura e literatura em Portugal (Vértice, Graal, Távola Redonda, Colóquio / Letras).
Mas a actividade literária de Matilde Rosa Araújo, muitas vezes premiada, desenvolveu-se na narrativa e na poesia, mais frequentemente na convergência de ambas essas modalidades, sobretudo no domínio da literatura infantil. As crianças constituíam, na verdade, o seu público-alvo, a sua grande opção como universo destinatário: na obra e na vida, eram os seus pupilos, senão mesmo os seus “filhos”.
Embora se tenha estreado, em 1943, com A Garrana, livro de contos, Matilde Rosa Araújo vai dedicar-se à literatura para crianças, obtendo grande sucesso a partir da publicação de Livro da Tila, em 1957, que se impõe como um dos livros que maior fascínio exerceu junto do público (não só de crianças). Três anos depois, surgirá O Cantar de Tila. De lembrar a colaboração com Fernando Lopes-Graça em As Cançõezinhas de Tila (além de ambos terem trabalhado em Canções Infantis para Canto e Piano).
A nossa “Tila”, hipocorístico com que os amigos e os jovens começaram a tratá-la, continuou a sua actividade literária com dezenas de livros, todos eles de adequados conteúdos às idades a que se dirigiam e de expressivas ilustrações. Entre eles, destacamos O Palhaço Verde, 1962, O Sol e o Menino dos Pés Frios, 1972, O Reino das Sete Pontas, 1974, As Botas do Meu Pai, 1977, O Gato Dourado, 1977, A Escola do Rio Verde, s/d, Voz Nua, 1986, O Passarinho de Maio, 1990, Fadas Verdes, 1994, O Capuchinho Cinzento, s/d, Anjos de Pijama, 2007. Alguns destes livros foram traduzidos para várias línguas.
Em 1980, foi-lhe atribuído o Grande Prémio de Literatura para Crianças, da Fundação Gulbenkian, e, em 1996, pela mesma instituição, o prémio para melhor livro infantil por Fadas Verdes (1994). Recebeu ainda o Prémio Carreira, da Sociedade Portuguesa de Autores em 2004, e o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
Quem ler as obras de Matilde Rosa Araújo fica cativado pelo cuidado calmo e terno em tratar poeticamente as intrigas, os temas e os motivos. Muitos dos poemas são tocados por práticas da poesia do século XX e também pelo cancioneiro e narrativa tradicionais. E quem conheceu a Matilde, a nossa “Tila”, evocará para sempre a sua elegância e simpatia suavemente sorridentes, com sua voz e atenção calmas e melódicas. O que não obstou a que também Matilde Rosa Araújo tivesse sido uma activa e dinâmica defensora dos direitos humanos, principalmente das crianças.
Permitindo-nos terminar com duas notas muito pessoais, lembraremos que (e adoptamos agora a primeira pessoa do singular):
- Já há alguns anos, conheci pessoalmente Matilde Rosa Araújo num dos jantares do PEN, que, na altura, tinham lugar na York House, e por intermédio das saudosas Maria Ondina Braga e Olga Gonçalves; desde esse dia, partilhávamos um carro (ou o da Olga ou o meu), indo buscar a Matilde à Rodrigo da Fonseca, para a nossa deslocação até às Janelas Verdes;
- Mais tarde, já em 2009, encontrei-me com Matilde na sua residência, mais concretamente na sua acolhedora sala, no meio das suas bonecas: a Andreia, minha filha, ausente nos E.U.A., tinha sido contactada para compor a música para uma das últimas obras da escritora e gostava de saber qual a sua preferência para tal efeito, recaindo a escolha em Anjos de Pijama, que viria a ser editada em CD pela Câmara Municipal da Trofa (2009), com direcção musical de Jairo Grossi e actuação dos Meninos Cantores do Município da Trofa.
JDPC (João David Pinto Correia)