Carta enviada em 19 de Julho de 2010 ao Presidente da Câmara Municipal do Porto

Carta enviada em 19 de Julho de 2010 ao Presidente da Câmara Municipal do Porto, com cópia para os meios de comunicação social:


Exmº. Senhor

Presidente da Câmara Municipal do Porto:

Foi com grande apreensão que a Direcção do PEN Clube Português e outros sócios que, nos últimos dias, quiseram associar-se ao teor desta carta, tomaram conhecimento dos resultados da votação do executivo dirigido por V. Exª. no sentido de não dar a nenhuma rua do Porto o nome de José Saramago, cuja dimensão universal ultrapassa quaisquer divergências de apreciação que possamos ter a respeito da obra, da pessoa e das ideias do escritor recentemente falecido, primeiro Prémio Nobel que as literaturas de língua portuguesa obtiveram.
Lamentando profundamente a referida deliberação, que, embora só responsabilize directamente os vereadores que a apoiaram, ficará para a História como a posição (oxalá não irreversível) de um dos mais importantes municípios do País, apelamos a que a CMP reexamine com serenidade e lucidez este assunto.
Com os mais respeitosos cumprimentos,

O PEN Clube Português,

Teresa Salema, Maria João Reynaud, Francisco Belard, João David Pinto Correia, Maria João Cantinho, Gastão Cruz, Maria do Sameiro Barroso, José Manuel de Vasconcelos, Manuel G. Simões, Manuel de Queiroz, Vergílio Alberto Vieira, Helena Barbas, Rui Costa, Pedro Eiras, Isabel Allegro de Magalhães, Mário de Carvalho, Casimiro de Brito, Ana Hatherly, Manuel Frias Martins, Rui Lage, Ana Luísa Amaral, Teolinda Gersão, António Rebordão Navarro, Jaime Rocha, Hélia Correia, Petar Petrov, Ivo Machado, Firmino Mendes, Pedro Tamen, Maria Velho da Costa, Maria do Rosário Pedreira, Maria Andresen, Maria Alzira Seixo, Luiz-Manuel, António Graça de Abreu, João Rui de Sousa, Lídia Jorge, Fernando J. B. Martinho, Inês Lourenço.

Fernando Echevarría é o vencedor do Grande Prémio de Poesia APE/CTT – 2009


 «Lugar de Estudo», de Fernando Echevarría, acaba de ser distinguido com o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores / CTT 2009. O júri, constituído por Armando Silva Carvalho, Maria João Reynaud e Sérgio Sousa, considerou que este livro «representa um momento singularmente alto da poesia portuguesa contemporânea», sendo «os cerca de 270 poemas inéditos que o compõem a expressão vigorosa de uma arte poética que o título resume». No breve comunicado que fundamenta a escolha, pode ler-se que «A poesia é, para este autor, um lugar de estudo e de aperfeiçoamento do trabalho poético, o qual é também o lugar da língua».

Fernando Echevarría vive no Porto e recebeu, entre outras distinções, o Prémio de Poesia António Ramos Rosa, 1.ª edição, 1998; o Prémio de Poesia da Fundação Luís Miguel Nava, 1998; o Prémio de Poesia Teixeira de Pascoaes, 2002; o Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes, do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, 2005; o Prémio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus, 2006; o Grande Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen, 2007, pelo conjunto da sua obra. Foi, além disso, distinguido com o Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante, atribuído pelo Presidente da República, e a Medalha de Ouro da Cidade do Porto.

É a segunda vez que o poeta recebe esta distinção da APE. Sobre os Mortos, livro publicado em 1991, foi o primeiro livro distinguido.

Matilde Rosa Araújo, a “nossa Tila”

Nos últimos meses, quatro ilustres escritores deixaram o círculo de amizade e de afirmação de objectivos que o PEN se propõe. Foram eles Luís Sousa Rebelo, M.S. Lourenço, José Saramago e, mais recentemente, Matilde Rosa Araújo. Ao longo da prática da sua escrita e da defesa dos direitos não só dos escritores como dos “cidadãos” do mundo, estes quatro autores foram exemplos maiores de dedicação e afirmação dos principais valores das suas e nossas condições – a Escrita, a Literatura, a Cidadania, a Liberdade. Cumpriram-no com entusiasmo e dignidade na sua acção cultural, na sua obra literária ou filosófica, na sua vida pessoal e pública.


Destes quatro nomes, Matilde Rosa Araújo foi o último a enlutar-nos (6 de Julho de 2010). Foram 89 anos de existência excelentemente preenchida como cidadã, como professora e como escritora. Nascida em Lisboa no dia 20 de Junho de 1921, licenciou-se na Faculdade de Letras de Lisboa em Filologia Românica em 1945. Optou pela profissão que considerou “apaixonante” – ser professora. E, como agente de instrução e educação, exerceu a sua actividade pedagógica em várias escolas de muitas localidades do País, desde o Barreiro, Caldas da Rainha, Elvas, Leiria, Portalegre, Porto e finalmente Lisboa. Na sua cidade natal, também, leccionou em diferentes escolas, inclusive na Escola do Magistério. Colaborou em importantes jornais (Diário de Lisboa, República, A Capital, Jornal do Fundão, Comércio do Funchal, entre outros) e em muitas revistas representativas de momentos fundamentais da cultura e literatura em Portugal (Vértice, Graal, Távola Redonda, Colóquio / Letras).
Mas a actividade literária de Matilde Rosa Araújo, muitas vezes premiada, desenvolveu-se na narrativa e na poesia, mais frequentemente na convergência de ambas essas modalidades, sobretudo no domínio da literatura infantil. As crianças constituíam, na verdade, o seu público-alvo, a sua grande opção como universo destinatário: na obra e na vida, eram os seus pupilos, senão mesmo os seus “filhos”.
Embora se tenha estreado, em 1943, com A Garrana, livro de contos, Matilde Rosa Araújo vai dedicar-se à literatura para crianças, obtendo grande sucesso a partir da publicação de Livro da Tila, em 1957, que se impõe como um dos livros que maior fascínio exerceu junto do público (não só de crianças). Três anos depois, surgirá O Cantar de Tila. De lembrar a colaboração com Fernando Lopes-Graça em As Cançõezinhas de Tila (além de ambos terem trabalhado em Canções Infantis para Canto e Piano).
A nossa “Tila”, hipocorístico com que os amigos e os jovens começaram a tratá-la, continuou a sua actividade literária com dezenas de livros, todos eles de adequados conteúdos às idades a que se dirigiam e de expressivas ilustrações. Entre eles, destacamos O Palhaço Verde, 1962, O Sol e o Menino dos Pés Frios, 1972, O Reino das Sete Pontas, 1974, As Botas do Meu Pai, 1977, O Gato Dourado, 1977, A Escola do Rio Verde, s/d, Voz Nua, 1986, O Passarinho de Maio, 1990, Fadas Verdes, 1994, O Capuchinho Cinzento, s/d, Anjos de Pijama, 2007. Alguns destes livros foram traduzidos para várias línguas.
Em 1980, foi-lhe atribuído o Grande Prémio de Literatura para Crianças, da Fundação Gulbenkian, e, em 1996, pela mesma instituição, o prémio para melhor livro infantil por Fadas Verdes (1994). Recebeu ainda o Prémio Carreira, da Sociedade Portuguesa de Autores em 2004, e o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.
Quem ler as obras de Matilde Rosa Araújo fica cativado pelo cuidado calmo e terno em tratar poeticamente as intrigas, os temas e os motivos. Muitos dos poemas são tocados por práticas da poesia do século XX e também pelo cancioneiro e narrativa tradicionais. E quem conheceu a Matilde, a nossa “Tila”, evocará para sempre a sua elegância e simpatia suavemente sorridentes, com sua voz e atenção calmas e melódicas. O que não obstou a que também Matilde Rosa Araújo tivesse sido uma activa e dinâmica defensora dos direitos humanos, principalmente das crianças.

Permitindo-nos terminar com duas notas muito pessoais, lembraremos que (e adoptamos agora a primeira pessoa do singular):
- Já há alguns anos, conheci pessoalmente Matilde Rosa Araújo num dos jantares do PEN, que, na altura, tinham lugar na York House, e por intermédio das saudosas Maria Ondina Braga e Olga Gonçalves; desde esse dia, partilhávamos um carro (ou o da Olga ou o meu), indo buscar a Matilde à Rodrigo da Fonseca, para a nossa deslocação até às Janelas Verdes;
- Mais tarde, já em 2009, encontrei-me com Matilde na sua residência, mais concretamente na sua acolhedora sala, no meio das suas bonecas: a Andreia, minha filha, ausente nos E.U.A., tinha sido contactada para compor a música para uma das últimas obras da escritora e gostava de saber qual a sua preferência para tal efeito, recaindo a escolha em Anjos de Pijama, que viria a ser editada em CD pela Câmara Municipal da Trofa (2009), com direcção musical de Jairo Grossi e actuação dos Meninos Cantores do Município da Trofa.

JDPC (João David Pinto Correia)