Faleceu no passado dia 8 de Dezembro o advogado, dramaturgo,
crítico teatral, historiador de teatro e ensaísta Luís Francisco Rebello.
Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores durante 30 anos e fundador, ao
lado de figuras como José Saramago, Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e
Urbano Tavares Rodrigues da Frente Nacional para a Defesa da Cultura.
LicCom ligações ao teatro, fundou e dirigiu, em 1946,
juntamente com Gino Saviotti, o Teatro-Estúdio do Salitre e, em 1971, foi
nomeado director do Teatro São Luiz, cargo de que se viria a demitir no ano
seguinte por não concordar com as ingerências da Comissão de Censura. Colaborou
em inúmeros jornais e revistas, entre eles a Colóquio-Letras, o Jornal de
Letras, a Seara Nova e a Vértice. Dirige, desde 1971, um Dicionário do Teatro
Português, publicado em fascículos. Jean-Paul Sartre e Pirandello foram os
autores que mais o terão influenciado a nível estético.
Comendador pela Ordem do Infante D. Henrique (1985), foi
distinguido com as Insígnias de Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito (1991),
atribuídas pelo Ministro da Comunicação francês George Kiejemann, e a Ordem de
Mérito (1995), atribuída pelo Dr. Mário Soares e recebeu também o Grande Prémio
da Sociedade Portuguesa de Autores (1994) e 1963 - Prémio de Teatro da
ex-Sociedade de Escritores (1964).
Nas suas próprias palavras:
Pode não se acreditar em coincidências, pero que las hay,
las hay, como o Quixote dizia das bruxas. Aqui há dias, procurando entre velhos
papéis, veio parar-me às mãos o convite para o espectáculo inaugural do
Teatro-Estúdio do Salitre, de que eu fui um dos fundadores, em 30 de Abril de
1946. Sucede que umas horas antes, havia tido necessidade de anotar a data da
minha licenciatura em Direito: 13 de Julho desse mesmo ano de 1946.
E era outra concidência: a preparação do espectáculo, em que
tomei parte activa, e a preparação para o exame final, quase simultâneas. Pouco
mais de dois meses separavam dois acontecimentos tão diversos entre si mas
decisivos ambos para o rumo que a minha vida iria tomar daí em diante -e, entre
acertos e desacertos, angústias e esperanças, ilusões e desilusões, mágoas
(muitas) e alegrias (algumas), mais de meio século foi passando...
A inesperada -e imprevisível -aproximação daquelas duas
datas teve o condão de transportar-me até esse tempo, ou de fazê-lo avançar até
mim: até este que hoje sou. Se o exercício do Direito foi, e em certa medida
continua ainda a ser, a minha profissão, agora mais oficial do que oficinal, a
prática do teatro nunca deixou de ser -aliás, já então, e desde que me conheço,
era -a minha paixão. O equilíbrio entre ambos foi conseguido à custa de algum
desequilíbrio e a coexistência, para ter sido possível, acompanhada de
sacrifícios e renúncias de um lado e do outro. Mas são inseparáveis um do outro,
e eu de qualquer deles.
Por esses dois caminhos, o Teatro e o Direito, iria
prosseguir então a minha vida. Caminhos que, sendo-o embora, nunca foram
paralelos, mas convergentes. Porque o teatro é uma exigência de justiça, e um
tribunal o palco de uma representação.
E é o destino dos homens que em ambos está em causa.
Concluído o curso na velha Faculdade do Campo de Santana
iniciei logo o estágio e, durante dezenas de anos um largo segmento da minha
vida ficou ligado às salas de audiências, aos gabinetes e às secretarias dos
tribunais, de Lisboa sobretudo, mas também de muitos outros pontos do país.
Mas foi aí, e essa experiência aproveitou à vertente
criativa da minha actividade, que pude tomar mais directo e mais fundo contacto
com a dupla face, trágica umas vezes, grotesca, outras, da comédia humana.
Era um tempo em que as relações entre os advogados e os
juízes se pautavam por regras de boa convivência, sem desconfianças ou reservas
de parte a parte, como hoje parece que tende a ser hábito.
Nenhum magistrado nos recusava a porta do seu gabinete, e
se, por excepção, com algum isso acontecesse, logo o facto era comentado e
reprovado. A independência de cada um mantinha-se intocada, e, para exercer a
sua autoridade, os juízes não precisavam de impô-la sobranceira e
arrogantemente. O caso dos tribunais políticos, os plenários -e muitas foram as
vezes que neles intervim, defendendo amigos ou companheiros de ideias e
princípios -era diferente; mais aí, já não se tratava de direito e justiça,
apenas o arbítrio imperava. E era um tempo em que os advogados defendiam
causas, não mediavam negócios nem traficavam influências. Um tempo em que a
advocacia era, para muitos, para quase todos, "sobretudo um modo de ser e
de estar, mais do que um modo de vida", para citar o advogado e
intelectual exemplar que é Miguel Veiga.
Durante anos fui conhecendo, e com alguns deles cheguei
mesmo a trabalhar, as grandes "águias do foro", les ténors du
barreau, como dizem os franceses: Azeredo Perdigão, Burstoff da Silva, Adelino
da Palma Carlos... E, no pólo oposto, a pequena falange dos "militantes de
base", profissionais experientes e hábeis, de gesto largo e verbo fácil,
que nas suas alocuções visavam por igual convencer os juízes e angariar futuros
clientes entre o auditório que avidamente os escutava... Alguns foram, no seu
tempo, extremamente populares, até pelo pitoresco ou a extravagância. O caso
mais memorável talvez tenha sido o de um oficial do Exército reformado, um
Costa-qualquer coisa, que, ao defender um réu acusado de haver assassinado os
pais, teria invocado como circunstância atenuante, justificativa da
benevolência do tribunal, o facto de ... ser orfão! Os seus mitos, as sua
vozes, os seus gestos, aparecem, desaparecem... Voltam a sumir-se nos mesmos
bastidores sombrios de onde agora emergem grandes senhores da advocacia: Fernando
Abranches-Ferrão, de quem fui durante mais de vinte anos companheiro de
escritório, Heliodoro Caldeira, Eduardo de Figueiredo, José Magalhães Godinho,
Mayer Garção, Francisco Zenha, Mário Soares, Duarte Vidal... E, entre os mais
novos, Jorge Sampaio, que convidei para trabalhar comigo no contencioso de uma
companhia de seguros (ele, generosamente não se esquece de o lembrar quando vem
a propósito), e José Carlos de Vasconcelos, que foi meu estagiário... Escrever
os seus nomes é escrever a palavra liberdade, que todos exemplarmente
defenderam.
Em 1973, com a eleição para a presidência da Sociedade de
Autores, comecei a afastar-me progressivamente da barra dos tribunais, onde
hoje a minha presença é meramente acidental, e a dedicar-me a outra área
jurídica à data muito descurada entre nós: o Direito de Autor. Desde então
sobre ele tenho escrito e falado, dentro e fora do país, leccionado no
Instituto Jurídico da Comunicação da Faculdade de Direito da Universidade de
Coimbra, e até legislado quando em 1985 participei na discussão e votação
parlamentares do Código hoje em vigor. Digamos que jurista e autor coincidiram
na mesma pessoa, para a qual ambos convergiram.
Mas havia, e há ainda, o teatro... Havia o teatro, a que eu
brincava desde os 4, 5 anos -o meu pai construíra-me um teatrinho de madeira
onde eu punha os meus bonecos a representar, diante de cenários recortados das
Images d'Épinal e colados em cartolinas, histórias que eu inventava ou recriava
a partir de outras que tivesse lido. E não tardou que, desse teatro de brincar,
eu passasse ao teatro "a sério": em 1931 assisti, pela primeira vez,
deslumbrado, ao encantamento de fingir a verdade, de transformar a verdade em
ficção e a ficção em verdade.
Não só como espectador. À entrada dos anos 30 (e da Avenida
da Liberdade), o meu avô paterno fundou o café Palladium, um edifício em estilo
art déco, que é hoje um asséptico centro comercial.
Frequentavam-no muitos actores, que entre o ensaio da tarde
e o espectáculo da noite ali se reuniam em animadas tertúlias com escritores e
jornalistas. O meu avô levava-me a vê-los nos teatros onde à noite
representavam, e no final da peça íamos visitá-los nos camarins, onde se ficava
a conversar enquanto se desmaquilhavam e voltavam a ser os mesmos que eu tinha
conhecido no café. Fascinava-me este jogo de construção/ desconstrução/
reconstrução.
Esta dialéctica (palavra que eu então, é claro,
desconhecia!) da ilusão e da desilusão, da ficção e da vida. Para mim, o mundo
era o teatro. E o teatro era o mundo.
Assim me fui familiarizando com grandes e modestos actores,
Alves da Cunha, Assis Pacheco, Samwell Dinis, João Villaret, mas também António
Palma, José Azambuja, Octávio Bramão, os "soldados rasos", sem os
quais no entanto as guerras não se ganham, e, menos assíduas, actrizes como
Maria Brandão, Adelina Campos, Georgina Cordeiro, Maria Lalande... Mais tarde
passei a visitá-los nos teatros onde actuavam; e foram muitas as peças a que
assisti duas vezes, uma na plateia, outra nos bastidores. Talvez eu julgasse,
então, que estava a apropriar-me do teatro. Na realidade, era o teatro que
estava a apropriar-se de mim. O Estúdio do Salitre foi, em 1945, o salto em
frente. Da cena experimental, de que ele foi o pioneiro, passei à cena
profissional. E quantos artistas, de entre os que eu tinha conhecido no
Palladium, visitado no seu camarim, visto representar e aplaudido, não vieram a
dizer, no palco do Nacional da Trindade, do Ginásio ou do Avenida, do Apolo ou
do Monumental, palavras que eu escrevi ou traduzi -mas como podia eu sabê-lo,
então? E acreditaria, se por antecipação mo dissessem?! Daqueles seis teatros,
só os dois primeiros subsistem hoje; os restantes, consumiu-os o fogo,
sacrificou-os a reconstrução urbanística ou imolou-os a especulação
imobiliária. A memória afectiva que a todos eles me liga é particularmente viva
e forte em relação a três: o Apolo, o Nacional e o Avenida.
O Apolo, onde o meu nome pela primeira vez figurou num
cartaz, ao lado de Alves da Cunha, temperamento genial de artista, condenado a
acomodar-se, as mais das vezes, à cinzentez de um reportório condicionado pelas
estúpidas restrições censórias, e da sublime Maria Lalande, de Álvaro Benamor e
de uma grande actriz, vinda dos últimos anos do século passado, Emília de
Oliveira, que ali teve o seu "canto do cisne".
O Nacional, onde em 1952 sofri o desgosto e a raiva da
proibição de O Dia Seguinte, mas tanbém, quatro anos depois, a emoção da
estreia de Alguém Terá de Morrer, e o privilégio de ter, como intérpretes,
Amélia Rey-Colaço, Palmira Bastos e Carmen Dolores, Rogério Paulo, José de
Castro e Ruy de Carvalho.
E, por fim, o Avenida, onde, durante os ensaios e as
representações de uma peça italiana que eu havia traduzido, uni o meu destino
àquela que foi, ao longo de 40 anos, a minha companheira inigualável e
insubstituível, mãe da minha filha Catarina, avó das minhas netas Matilde e
Adriana, que só através das suas interpretações cinematográficas (A Rosa de
Alfama, Duas Causas, Quando o Mar Galgou a Terra) puderam conhecê-la.
Já não existe o Avenida, já não existe o Apolo, o Nacional
que lhes sobrevive não é o mesmo de então. Nem a cidade, de que eles eram caixa
de ressonância, é hoje a mesma. Mudaram os hábitos, o modo de viver e de estar
na cidade. O convívio nos cafés, nos camarins dos teatros, durante e após o
espectáculo, que se prolongava depois pela noite fora, nos bares e nos dancings
da capital, até ao cacau da Ribeira, já de madrugada, tudo isso pertence a um
tempo que já não é aquele em que estamos.
Pior? Melhor? Outro.
Não me considero passadista -como não aceitar que a evolução
é uma lei inelutável e necessária da vida? Mas tenho pena. Sim, tenho muita
pena.
E, por momentos, foi-me grato, por mercê de um velho cartão
de convite e de um velho diploma de licenciatura, voltar a esse tempo. Ou
trazê-lo até mim
in Jornal de Letras - 20 de Maio de 2009