O Ciclo da Natividade em Trás-os-Montes



O Ciclo da Natividade em Trás-os-Montes

No mundo cristão, o Ciclo da Natividade expressa-se de forma vibrante, numa convivialidade que evidencia um sentimento comunitário, seja através do culto da mesa, da abundância, após o ciclo das colheitas, seja através do início do ciclo cristológico, da renovação espiritual, materializado pela teatralidade das festas solsticiais, das facécias dos «caretos», mas também pelas representações teatrais religiosas, pelos venerados Presépios, em que não faltam as facetas profanas de índole popular, os jocosos colóquios de pastores.

Trás-os-Montes não ficou alheia a estas representações populares, realizassem-se elas ou dentro da Igreja, ou no adro, ou mesmo nas eiras. Um pouco por toda a parte os autos da Natividade ou da Paixão de Cristo surgem como manifestação de uma crença na força divina do ser humano, que revê na figura do Filho de Deus feito homem, o penoso trajecto do seu viver e da possibilidade de transfiguração; o sentimento que une o povo é comum, e as manifestações também.

 Um dos autos do ciclo da Natividade transmontana foi recuperado na sua quase totalidade através de “cascos” ainda existentes em algumas localidades, tais como Santo António de Monfortes, Tronco, Cimo de Vila da Castanheira, Vilartão, Lebução, Nozelos, Sonim, Rebordelo, Nuzedo de Baixo, São Pedro Velho e Vale das Fontes, mas também através do registo da memória de diversos participantes que, em tempos, desempenharam algum papel na representação do Auto da Criação do Mundo ou Princípio do Mundo, também denominado Ramo. Partindo das representações de 1924, 1935 e 1949, recriou-se este auto em 19 de Agosto de 2011, em Urrós, no concelho de Mogadouro, com um grupo de 43 actores locais.

O Centro de Tradições Populares Manuel Viegas Guerreiro (CTPP-FLUL) em conjunto com o Centro de Estudos de Teatro (CET-FLUL) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), com o patrocínio da Câmara Municipal de Mogadouro, da Casa de Trás-os-Montes em Lisboa e da Reitoria da Universidade de Lisboa, uniram-se de forma a dar continuidade ao projecto de recuperação do Património Oral Transmontano proporcionando, no dia 14 de Janeiro de 2012, pelas 15 horas, na Aula Magna de Lisboa, a representação do Auto da Criação do Mundo ou Princípio do Mundo pela população de Urrós.

Mestre David Luís Casimiro/(CTPP e doutorando da FLUL)

Prof. João David Pinto Correia (Director do CTPP/ FLUL)





Auto da Criação do Mundo ou Princípio do Mundo

ANTIGO TESTAMENTO



Primeira Jornada:

ü  Acto de Adão e Eva;

ü  Acto de Abel, Seth e Caim


Entremez:

ü  Acto da Inveja, Diabo, Beliza, Júlia, Rebeca, Narciso, Silvestre e Vulcano

 Intervalo de 15 minutos


NOVO TESTAMENTO


Segunda Jornada:

ü  Acto da Anunciação do Anjo;

ü  Acto da Visitação de Santa Isabel;

ü  Acto do Nascimento de Jesus;

ü  Acto da Adoração dos Pastores;

ü  Acto do Rei Herodes e dos reis Magos.


Entrada: 6,00 Euros

Bilhetes à venda:

-       Casa de Trás-os-Montes em Lisboa;
Até 06 de Janeiro de 2012

-       Aula Magna da Reitoria da UL
13 de Janeiro das 14.00 às 18.00 e
14 de Janeiro das 13.00 às 15.00;

Para Reservas:

-       Casa de Trás-os-Montes em Lisboa:
ctmad.lisboa@gmail.com/ tel. 217939311
-       Centro de Tradições Populares Portuguesas:
centro.tra@fl.ul.pt
-       autocriacaodomundo@gmail.com

Eduardo Lourenço vence Prémio Pessoa 2011

O ensaísta, filósofo e professor universitário Eduardo Lourenço foi o laureado com o Prémio Pessoa de 2011, anunciado esta sexta-feira. No 25.º ano do Prémio Pessoa, uma iniciativa do Expresso em colaboração com a Caixa Geral de Depósitos, o júri presidido por Francisco Pinto Balsemão distinguiu Eduardo Lourenço, de 88 anos, pelo seu trabalho de reflexão crítica ao longo de mais de meio século. A reedição da obra completa do ensaísta e filófoso, pela Fundação Calouste Gulbenkian (em 38 volumes), foi o motivo mais imediato para a atribuição do prémio.

Mais informação aqui e aqui.

O P.E.N. recorda Luís Francisco Rebello

Faleceu no passado dia 8 de Dezembro o advogado, dramaturgo, crítico teatral, historiador de teatro e ensaísta Luís Francisco Rebello. Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores durante 30 anos e fundador, ao lado de figuras como José Saramago, Armindo Magalhães, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues da Frente Nacional para a Defesa da Cultura.
LicCom ligações ao teatro, fundou e dirigiu, em 1946, juntamente com Gino Saviotti, o Teatro-Estúdio do Salitre e, em 1971, foi nomeado director do Teatro São Luiz, cargo de que se viria a demitir no ano seguinte por não concordar com as ingerências da Comissão de Censura. Colaborou em inúmeros jornais e revistas, entre eles a Colóquio-Letras, o Jornal de Letras, a Seara Nova e a Vértice. Dirige, desde 1971, um Dicionário do Teatro Português, publicado em fascículos. Jean-Paul Sartre e Pirandello foram os autores que mais o terão influenciado a nível estético.
Comendador pela Ordem do Infante D. Henrique (1985), foi distinguido com as Insígnias de Cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito (1991), atribuídas pelo Ministro da Comunicação francês George Kiejemann, e a Ordem de Mérito (1995), atribuída pelo Dr. Mário Soares e recebeu também o Grande Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores (1994) e 1963 - Prémio de Teatro da ex-Sociedade de Escritores (1964).


Nas suas próprias palavras:
Pode não se acreditar em coincidências, pero que las hay, las hay, como o Quixote dizia das bruxas. Aqui há dias, procurando entre velhos papéis, veio parar-me às mãos o convite para o espectáculo inaugural do Teatro-Estúdio do Salitre, de que eu fui um dos fundadores, em 30 de Abril de 1946. Sucede que umas horas antes, havia tido necessidade de anotar a data da minha licenciatura em Direito: 13 de Julho desse mesmo ano de 1946.
E era outra concidência: a preparação do espectáculo, em que tomei parte activa, e a preparação para o exame final, quase simultâneas. Pouco mais de dois meses separavam dois acontecimentos tão diversos entre si mas decisivos ambos para o rumo que a minha vida iria tomar daí em diante -e, entre acertos e desacertos, angústias e esperanças, ilusões e desilusões, mágoas (muitas) e alegrias (algumas), mais de meio século foi passando...
A inesperada -e imprevisível -aproximação daquelas duas datas teve o condão de transportar-me até esse tempo, ou de fazê-lo avançar até mim: até este que hoje sou. Se o exercício do Direito foi, e em certa medida continua ainda a ser, a minha profissão, agora mais oficial do que oficinal, a prática do teatro nunca deixou de ser -aliás, já então, e desde que me conheço, era -a minha paixão. O equilíbrio entre ambos foi conseguido à custa de algum desequilíbrio e a coexistência, para ter sido possível, acompanhada de sacrifícios e renúncias de um lado e do outro. Mas são inseparáveis um do outro, e eu de qualquer deles.
Por esses dois caminhos, o Teatro e o Direito, iria prosseguir então a minha vida. Caminhos que, sendo-o embora, nunca foram paralelos, mas convergentes. Porque o teatro é uma exigência de justiça, e um tribunal o palco de uma representação.
E é o destino dos homens que em ambos está em causa.
Concluído o curso na velha Faculdade do Campo de Santana iniciei logo o estágio e, durante dezenas de anos um largo segmento da minha vida ficou ligado às salas de audiências, aos gabinetes e às secretarias dos tribunais, de Lisboa sobretudo, mas também de muitos outros pontos do país.
Mas foi aí, e essa experiência aproveitou à vertente criativa da minha actividade, que pude tomar mais directo e mais fundo contacto com a dupla face, trágica umas vezes, grotesca, outras, da comédia humana.
Era um tempo em que as relações entre os advogados e os juízes se pautavam por regras de boa convivência, sem desconfianças ou reservas de parte a parte, como hoje parece que tende a ser hábito.
Nenhum magistrado nos recusava a porta do seu gabinete, e se, por excepção, com algum isso acontecesse, logo o facto era comentado e reprovado. A independência de cada um mantinha-se intocada, e, para exercer a sua autoridade, os juízes não precisavam de impô-la sobranceira e arrogantemente. O caso dos tribunais políticos, os plenários -e muitas foram as vezes que neles intervim, defendendo amigos ou companheiros de ideias e princípios -era diferente; mais aí, já não se tratava de direito e justiça, apenas o arbítrio imperava. E era um tempo em que os advogados defendiam causas, não mediavam negócios nem traficavam influências. Um tempo em que a advocacia era, para muitos, para quase todos, "sobretudo um modo de ser e de estar, mais do que um modo de vida", para citar o advogado e intelectual exemplar que é Miguel Veiga.
Durante anos fui conhecendo, e com alguns deles cheguei mesmo a trabalhar, as grandes "águias do foro", les ténors du barreau, como dizem os franceses: Azeredo Perdigão, Burstoff da Silva, Adelino da Palma Carlos... E, no pólo oposto, a pequena falange dos "militantes de base", profissionais experientes e hábeis, de gesto largo e verbo fácil, que nas suas alocuções visavam por igual convencer os juízes e angariar futuros clientes entre o auditório que avidamente os escutava... Alguns foram, no seu tempo, extremamente populares, até pelo pitoresco ou a extravagância. O caso mais memorável talvez tenha sido o de um oficial do Exército reformado, um Costa-qualquer coisa, que, ao defender um réu acusado de haver assassinado os pais, teria invocado como circunstância atenuante, justificativa da benevolência do tribunal, o facto de ... ser orfão! Os seus mitos, as sua vozes, os seus gestos, aparecem, desaparecem... Voltam a sumir-se nos mesmos bastidores sombrios de onde agora emergem grandes senhores da advocacia: Fernando Abranches-Ferrão, de quem fui durante mais de vinte anos companheiro de escritório, Heliodoro Caldeira, Eduardo de Figueiredo, José Magalhães Godinho, Mayer Garção, Francisco Zenha, Mário Soares, Duarte Vidal... E, entre os mais novos, Jorge Sampaio, que convidei para trabalhar comigo no contencioso de uma companhia de seguros (ele, generosamente não se esquece de o lembrar quando vem a propósito), e José Carlos de Vasconcelos, que foi meu estagiário... Escrever os seus nomes é escrever a palavra liberdade, que todos exemplarmente defenderam.
Em 1973, com a eleição para a presidência da Sociedade de Autores, comecei a afastar-me progressivamente da barra dos tribunais, onde hoje a minha presença é meramente acidental, e a dedicar-me a outra área jurídica à data muito descurada entre nós: o Direito de Autor. Desde então sobre ele tenho escrito e falado, dentro e fora do país, leccionado no Instituto Jurídico da Comunicação da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, e até legislado quando em 1985 participei na discussão e votação parlamentares do Código hoje em vigor. Digamos que jurista e autor coincidiram na mesma pessoa, para a qual ambos convergiram.
Mas havia, e há ainda, o teatro... Havia o teatro, a que eu brincava desde os 4, 5 anos -o meu pai construíra-me um teatrinho de madeira onde eu punha os meus bonecos a representar, diante de cenários recortados das Images d'Épinal e colados em cartolinas, histórias que eu inventava ou recriava a partir de outras que tivesse lido. E não tardou que, desse teatro de brincar, eu passasse ao teatro "a sério": em 1931 assisti, pela primeira vez, deslumbrado, ao encantamento de fingir a verdade, de transformar a verdade em ficção e a ficção em verdade.
Não só como espectador. À entrada dos anos 30 (e da Avenida da Liberdade), o meu avô paterno fundou o café Palladium, um edifício em estilo art déco, que é hoje um asséptico centro comercial.
Frequentavam-no muitos actores, que entre o ensaio da tarde e o espectáculo da noite ali se reuniam em animadas tertúlias com escritores e jornalistas. O meu avô levava-me a vê-los nos teatros onde à noite representavam, e no final da peça íamos visitá-los nos camarins, onde se ficava a conversar enquanto se desmaquilhavam e voltavam a ser os mesmos que eu tinha conhecido no café. Fascinava-me este jogo de construção/ desconstrução/ reconstrução.
Esta dialéctica (palavra que eu então, é claro, desconhecia!) da ilusão e da desilusão, da ficção e da vida. Para mim, o mundo era o teatro. E o teatro era o mundo.
Assim me fui familiarizando com grandes e modestos actores, Alves da Cunha, Assis Pacheco, Samwell Dinis, João Villaret, mas também António Palma, José Azambuja, Octávio Bramão, os "soldados rasos", sem os quais no entanto as guerras não se ganham, e, menos assíduas, actrizes como Maria Brandão, Adelina Campos, Georgina Cordeiro, Maria Lalande... Mais tarde passei a visitá-los nos teatros onde actuavam; e foram muitas as peças a que assisti duas vezes, uma na plateia, outra nos bastidores. Talvez eu julgasse, então, que estava a apropriar-me do teatro. Na realidade, era o teatro que estava a apropriar-se de mim. O Estúdio do Salitre foi, em 1945, o salto em frente. Da cena experimental, de que ele foi o pioneiro, passei à cena profissional. E quantos artistas, de entre os que eu tinha conhecido no Palladium, visitado no seu camarim, visto representar e aplaudido, não vieram a dizer, no palco do Nacional da Trindade, do Ginásio ou do Avenida, do Apolo ou do Monumental, palavras que eu escrevi ou traduzi -mas como podia eu sabê-lo, então? E acreditaria, se por antecipação mo dissessem?! Daqueles seis teatros, só os dois primeiros subsistem hoje; os restantes, consumiu-os o fogo, sacrificou-os a reconstrução urbanística ou imolou-os a especulação imobiliária. A memória afectiva que a todos eles me liga é particularmente viva e forte em relação a três: o Apolo, o Nacional e o Avenida.
O Apolo, onde o meu nome pela primeira vez figurou num cartaz, ao lado de Alves da Cunha, temperamento genial de artista, condenado a acomodar-se, as mais das vezes, à cinzentez de um reportório condicionado pelas estúpidas restrições censórias, e da sublime Maria Lalande, de Álvaro Benamor e de uma grande actriz, vinda dos últimos anos do século passado, Emília de Oliveira, que ali teve o seu "canto do cisne".
O Nacional, onde em 1952 sofri o desgosto e a raiva da proibição de O Dia Seguinte, mas tanbém, quatro anos depois, a emoção da estreia de Alguém Terá de Morrer, e o privilégio de ter, como intérpretes, Amélia Rey-Colaço, Palmira Bastos e Carmen Dolores, Rogério Paulo, José de Castro e Ruy de Carvalho.
E, por fim, o Avenida, onde, durante os ensaios e as representações de uma peça italiana que eu havia traduzido, uni o meu destino àquela que foi, ao longo de 40 anos, a minha companheira inigualável e insubstituível, mãe da minha filha Catarina, avó das minhas netas Matilde e Adriana, que só através das suas interpretações cinematográficas (A Rosa de Alfama, Duas Causas, Quando o Mar Galgou a Terra) puderam conhecê-la.
Já não existe o Avenida, já não existe o Apolo, o Nacional que lhes sobrevive não é o mesmo de então. Nem a cidade, de que eles eram caixa de ressonância, é hoje a mesma. Mudaram os hábitos, o modo de viver e de estar na cidade. O convívio nos cafés, nos camarins dos teatros, durante e após o espectáculo, que se prolongava depois pela noite fora, nos bares e nos dancings da capital, até ao cacau da Ribeira, já de madrugada, tudo isso pertence a um tempo que já não é aquele em que estamos.
Pior? Melhor? Outro.
Não me considero passadista -como não aceitar que a evolução é uma lei inelutável e necessária da vida? Mas tenho pena. Sim, tenho muita pena.
E, por momentos, foi-me grato, por mercê de um velho cartão de convite e de um velho diploma de licenciatura, voltar a esse tempo. Ou trazê-lo até mim

in Jornal de Letras - 20 de Maio de 2009

Lançamento de «O Mundo está cheio de Deuses», de João Barrento


O Mundo está cheio de Deuses, nova obra de João Barrento, será apresentada no próximo 13 de Dezembro, pelas 18h30, na Assírio & Alvim Livros (Pátio do Siza - Chiado - Entrada pela Rua Garret) com a participação de António Pinto Ribeiro.

Álvaro Manuel Machado apresenta «A Arte da Crítica»


 O novo livro de Álvaro Manuel Machado - A Arte da Crítica - será apresentado no próximo 13 de Dezembro, pelas 18h30, na Casa Fernando Pessoa (Rua Coelho da Rocha, nº16, Campo de Ourique, Lisboa), seguida de um cocktail.

A apresentação da obra será da responsabilidade do Prof. Doutor Nuno Júdice

Conferência sobre «O Homem sem Qualidades», de Robert Musil

 João Barrento apresenta, na próxima terça-feira 6 de Dezembro, no âmbito da temática Livros Difíceis, a conferência sobre «O Homem sem Qualidades», de Robert Musil. O evento terá início às 18h30 na Casa Fernando Pessoa (Rua Coelho da Rocha, 16, Campo de Ourique). 




Os ideais e a moral são o melhor meio de se preencher esse grande buraco a que se chama alma 
Robert Musil

Homenagem a Pedro Tamen Na Concha Azul, o Róseo Umbigo de Delfos Poesia, Mito e Arqueologia

No próximo 15 de Dezembro, pelas 18h, o Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia vai apresentar uma homenagem a Pedro Tamen com uma sessão de leitura de poesia pelo próprio, sob o tema Na Concha Azul, o Róseo Umbigo de Delfos - Poesia, Mito e Arqueologia. 

A homenagem vai ocorrer no Museu Nacional de Arqueologia, no Mosteiro do Jerónimos.

Pedro Tamen nasceu em Lisboa, em 1934 e estudou Direito na Universidade de Lisboa. Entre 1958 e 1975 foi director da Editora Moraes e depois, até 2000 (data em que se retirou da actividade profissional), administrador da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi também dirigente cineclubista, professor do ensino secundário e director-adjunto de uma revista de actualidades.

Fez crítica literária no semanário Expresso. Foi presidente do P.E.N. Clube Português (1987-90). Foi membro da Direcção e presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores. Tem poemas traduzidos e publicados em francês, inglês, espanhol, italiano, alemão, neerlandês, sueco, húngaro, romeno, checo, eslovaco, búlgaro e letão. 

Tem desenvolvido uma intensa actividade de tradutor literário e obteve em 1990 o Grande Prémio da Tradução. Foi duas vezes finalista do Prémio Europeu de Tradução. Traduziu recentemente À la Recherche du temps perdu, de Marcel Proust. 

A sua obra poética, iniciada em 1956 com Poema para Todos os Dias (Ed. do Autor, Lisboa) encontra-se reunida em Retábulo das Matérias (Gótica, Lisboa, 2001). Posteriormente, em 2006, publicou um novo livro Analogia e Dedos e, em 2010, O Livro do Sapateiro. Em 1999 foi publicado um disco-antologia intitulado Escrita Redita (poemas ditos por Luís Lucas; Ed. Presença / Casa Fernando Pessoa). À sua poesia foram atribuídos o Prémio D. Dinis (1981), o Prémio da Crítica (1991), o Grande Prémio Inapa de Poesia (1991), o Prémio Nicola (1997), o Prémio Bordalo da Imprensa (2000), o Prémio do PEN Clube (2000), o Prémio Luís Miguel Nava (2007) e o Prémio Inês de Castro (2007). 

SÓ DOS MORTOS DEVEMOS TER CIÚMES

Só dos mortos devemos ter ciúmes; acordar
de entre as pedras doentes dolorosos
que da beira das arribas nos atirem ao porto
onde enfim se encontre a nossa angústia.
Só eles lutam palmo a palmo pelo espaço
em que já vertical erguemos nosso braço
em busca de que sumo ou de que céu. É que só eles
nos retiram da cama de que por nós foi feita
a escolha: a macieza intensa que julgámos
eterna, que nos parecia tão cordatamente
entregue à nossa própria suma sumaúma.
Só os mortos, horror, inda que vivos, vivem
paredes meias com os nossos dedos, logo afastam
os momentos ferozes que tocássemos, e as nuvens
por sobre o mar dos olhos: é bem feito,
dizem os meninos. Pois que dos vivos vivos
a vida nos desvia e nisso nos conduz, assaz
encaminhados pelo que vamos querendo.
Só os mortos nos mordem, nos apontam
a dedo frio e tenso, entorpecem desejos
e, pois pior, só eles nos expulsam
do vero som dos sinos numa entrega
às palavras baldadas do comércio.
A luta clara que sonhada fosse
pela mão dada e limpa que nos dessem
tropeça, polvo, com misérias nossas
e enterra-te na pérfida, agoniada leira
onde dominam eles nossas bocas e o sangue
que nelas perpassasse. Só os mortos,
invisíveis, letais, pesados entes,
nos disputam a vida, e só por fim nos matam.

(Agora, Estar, 1975)

Lançamento de «Próspero Morreu», nova obra de Ana Luisa Amaral

Próspero Morreu, o mais recente livro de Ana Luisa Amaral, será lançado no Porto e em Lisboa nos próximos 6 e 13 de Dezembro, respectivamente. 

No Porto, o evento terá início às 18h30 no Teatro do Campo Alegre (Rua das Estrelas s/n) e vai contar com a apresentação de Rui Carvalho Homem e com a leitura de alguns excertos por Alexandra Moreira da Silva e Daniel Pinto, acompanhados ao piano por Álvaro Teixeira Lopes. 

Em Lisboa, a apresentação vai ter lugar na livraria Leya Bucholz (Rua Duque de Palmela, nº. 4), também pelas 18h30. Eugénia Vasques e Nuno Carinhas serão responsáveis pela apresentação da obra e serão lidos alguns excertos pela autora, Daniel Pinto, Fernanda Lapa, Luís Lucas, Natália Luísa e Sara Carinhas.

Em Próspero morreu, aquele que é o seu primeiro texto em forma dramática, Ana Luísa Amaral convoca vozes vindas de tempos diferentes e tradições diversas, que falam do amor, do poder, da ambição – e da magia. “Próspero morreu” e, com ele, uma ordem chegou também ao fim. “Sem liberdade é o poder um monstro / de braços bifurcados e língua bifurcada / onde se alojam leis sem pensamento / e se torna viscoso o coração” – o aviso é de Ariel, “ser vindo do caos e do abismo”, cuja voz anuncia a chegada à ilha de gentes de paragens várias. Será na ilha que se entrecruzam os vários fios que dão lugar às histórias de Penélope, de Teseu e Ariadne, de Barbara (a escrava) e Luiz, e também a história de amor entre Ariadne e Caliban.

Foi esta a história do labirinto,
as ilhas, e além.
E eu, que a contei, ou eu, coro de nós,
irei ficar em história.
Escrava dos tempos, mas do tempo livre.
Que mais a desejar, senão memória?
Caiu a noite. E sopra um vento fino.
E não é já assombro
assombro tal?