Selecção e Tradução de John Havelda, Isabel Patim, Manuel Portela
Antígona, Lisboa, 2010, 269 págs., € 18,50.
Com selecção, bio e bibliografias, e tradução de John Havelda, Isabel Patim e Manuel Portela, saiu agora a divertida e interessante antologia PULLLLLLLLLLL (são onze éles). Contem os escritos de 13 poetas canadianos de língua inglesa. Procura ser representativa das últimas três décadas e oferece-nos, de facto, uma paleta de composições abarcando os mais distintos universos e práticas. Nalguns casos revelam-se influências inesperadas. De entre as dos vizinhos americanos, para além de Charles Olson e da ‘Black Mountain School’, há ecos de William Carlos Williams e até de Marianne Moore (Robert Kroetsch). De par, encontra-se a inscrição nalgum surrealismo, como em Lisa Robertson: «inventámos o poder. O poder é uma prótese cor-de-rosa escondida na floresta. Entre pinheiros negros apertamo-la e imergimos a nossa prótese cor-de-rosa no lago.» (p.255), que se prolonga noutros autores em jogos de palavras a sugerir o «cadavre exquis». A filiação na Poesia Concreta exibe-se no caso dos versos que invadem a página, rompendo com alinhamentos tipográficos, explorando-a na sua «super (face) fície» (diz Robin Blaser, p.17). De comparações e semelhanças ressalta uma diferença, inclassificável, que permite perceber o adjectivo «canadiano». Os poemas denunciam o seu desejo de se metamorfosearem em imagem. De linear, a leitura torna-se bidimensional, por contaminação mesmo nos casos em que é respeitada a estrutura tradicional da estrofe. Diz Steve McCaffery: «cada processo verbal é uma forma de interferência irritante/ a leitura interfere com a escrita/ a escrita interfere com outra escrita// tocamos logo vemos» (p.157).
É curiosa a prática da, também tradutora, Erín Moure, que trabalha – faz um «remake», ou antes uma «transelation» de – «O Guardador de Rebanhos» de Pessoa. Confessa: «A mera reprodução nunca foi o meu objectivo. Não ‘fidelidade’ mas ‘felicidade’, não fidelidade, mas ‘Alta Fidelidade!’. Desejei condensar os gestos, acolher Caeiro em Toronto (aonde evidentemente se dirigia a alta velocidade) e ser firmemente fiel ao gesto e ao movimento do trabalho de Pessoa, à filosofia de Caeiro. A mera reprodução não teria ajudado, teria soado insípida, remota, impresente.» (p.221).
Como a edição é bilingue, permite ver como terá sido difícil (e divertido) o exercício de tradução.
Helena Barbas
